O pênalti marcado a favor do Brasil contra o Egito resgatou a enfadonha discussão sobre o auxílio eletrônico à arbitragem. Mais enfadonho que a discussão em si, só o argumento de quem é contrário, de que isso tiraria a graça do futebol, a polêmica.
Fico espantado com como o futebol se recusa a incorporar a tecnologia que avança diariamente em várias áreas. O equipamento esportivo evoluiu, a preparação física e a condição dos atletas melhoraram, os estádios (mais em alguns lugares do que outros) se modernizaram, mas a regra, com pouquíssimas alterações, é a mesma de 100 anos atrás. É como se Ferraris, Porsches e Lamborghinis disputassem um campeonato de carros de turismo com regras de corrida de biga.
O melhor exemplo de como o auxílio eletrônico pode tornar o jogo mais justo sem deturpá-lo vem do tênis. O desafio já corrigiu algumas deformidades na arbitragem e virou uma atração à parte no jogo. A tensão do público com a viagem da bolinha eletrônica, o pedido de desafio de alguns tenistas apenas para esfriar a partida… Um show.
Ah, mas ainda é restrito a alguns torneios. Verdade. Nem entre os Grand Slams é unânime, pois Roland Garros ainda prefere o ritual besta de caçar marca de bolinha na argila. Mas onde foi implantado, funciona. E nem por isso passamos a ter dois jogos diferentes.
A Fifa poderia perfeitamente começar com o apito eletrônico nas suas competições. Depois passa aos torneios continentais, a um determinado de ligas mais fortes economicamente, até proliferar. Nunca vai chegar à várzea, mas se conseguir se fixar na primeira divisão de 30, 40 ligas nacionais já estará de bom tamanho. O futebol realmente profissional no mundo não é muito maior do que isso. É a realidade.
O Brasil tem condições de implantar em boa parte dos campeonatos estaduais, talvez até na segunda divisão de um ou outro. A Estônia talvez não consiga nem mesmo adotar na sua liga nacional. Paciência. Melhor assim do que nada.
E não estou falando de um mega-aparato. Pode ser o quarto árbitro com uma tevê numa cabine. Fica predeterminado que cada time pode fazer dois pedidos por tempo, renovando se o pedido for procedente. O capitão vai ao juiz e solicita. O jogo parou, o árbitro chama o quarto árbitro. Ele olha pela tevê – estádio que tiver telão pode até exibir o replay – e a decisão é tomada pelo juiz. Pronto. Justo e indolor.
Acabou, São Paulo
Podem apostar, o Brasil terá um novo campeão brasileiro neste ano. E o São Paulo demora a reencontrar seu caminho.
Mandar Muricy Ramalho embora foi uma burrada. Um comodismo. Uma falta de respeito.
Burrada porque não há gente melhor à solta no mercado. Quando li a notícia da demissão, imaginei até que o São Paulo fosse tentar trazer Abel Braga, que está no Oriente Médio. Contrataram Ricardo Gomes. Qual currículo ele tem? Qual a capacidade de lidar com um elenco claramente mimado? Zero.
E aí começo a falar do comodismo. No intervalo de duas semanas, Washington, Dagoberto, Borges e André Lima reclamaram publicamente de sair do time. Como se tivessem moral para tanto. Dos quatro, só Borges fez o bastante pelo São Paulo para poder reivindicar algo dentro do clube. Os demais têm é que acatar as determinações do técnico quietinhos.
Fora isso, o São Paulo, sempre endeusado por contratar bem, errou a mão feio neste ano. Arouca, Júnior César e Wágner Diniz fracassaram.
Ou seja, jogadores são indisciplinados, reforços não dão certo e a culpa do treinador. Se o São Paulo fosse tão diferenciado como diz ser, reformularia o elenco imediatamente e daria força a Muricy. Mas preferiu mostrar que é apenas mais um na vala comum do futebol brasileiro, vivendo apenas de arroubos de lucidez em meio a um pensamento linearmente tacanho e inconsequente.
E aí entro na falta de respeito. Muricy foi tricampeão brasileiro pelo São Paulo. Sequência mais do que suficiente para ele merecer uma nova chance, receber o crédito de iniciar uma remontagem completa do São Paulo, nem que isso significasse abrir mão de disputar o título brasileiro deste ano.
Já que o São Paulo gosta tanto de se comparar aos europeus, aqui um dado definitivo. Alex Ferguson levou uma década e meia para dar o título europeu ao Manchester. Dar uma quinta chance a Muricy não seria demais.
Faltou o Rogério
De uma coisa tenho certeza. Se Rogério Ceni está jogando, no dia a dia do clube, Muricy não teria sido mandado embora. O São Paulo poderia até cair na Libertadores, mas o elenco não teria se deteriorado dessa maneira. Aos primeiros sinais de rebeldia, Rogério chamaria os jogadores num canto e os colocaria no devido lugar. Em último caso, iria para uma coletiva defender Muricy. Sem o líder, Muricy ficou sozinho contra um grupo mimado.
Enólogo
Para dar uma descontraída, uma história do Ricardo Gomes durante sua passagem pelo Coritiba, em 2001, entre as duas primeiras vindas de Ivo Wortmann ao Alto da Glória. Ricardo jogou em Portugal e na França, países que têm alguns dos melhores vinhos do mundo.
Logo que chegou ao Coxa, Ricardo foi levado ao Mesa Redonda, da CNT. E como todo o participante do programa, recebeu um kit do vinho que patrocinava o mesa (não lembro bem a marca, mas obviamente não se comparava àquilo que o ex-zagueiro consumia na Europa).
Educado, Ricardo agradeceu o presente. Mas logo se desfez dele. Na saída, chamou o assessor de imprensa do clube. “Tem mais uns 10, 12 jogadores que você pode trazer aqui. Só me traz aqui de novo depois que cada um deles passar aqui uma vez. E pode pegar o vinho para você”, disse. Ricardo não durou o suficiente no cargo para voltar ao Mesa.
Ramires
Ainda estou embasbacado com a arrancada de Ramires no segundo gol do Brasil contra os Estados Unidos. Já o vi fazer isso algumas vezes no Cruzeiro, mas na seleção é diferente. A amarelinha pesa e muito craque em clube já se escondeu e ainda se esconde quando canta o hino de chuteiras.
Ramires não. Precisou de alguns minutos para se adaptar à situação, mas quando teve a chance, aproveitou. Percorreu 66 metros entre uma meia-lua e outra, metade do caminho dominando a bola. Não sei em quanto tempo a distância foi cumprida, mas é muito mais rápido que a média dos boleiros.
À velocidade, Ramires aliou técnica. Por confiar em sua resistência de maratonista queniano, sabia que o marcador americano ficaria para trás em algum momento. Quando o cara cansou, pimba. Ramires meteu-lhe a bola entre as canetas e Robinho fez o resto.
Escrevi outro dia que Kléberson poderia pintar novamente na Copa de 2010. Mantenho o que disse, Kléberson estará lá. Não na figura de José Pereira Kléberson, cidadão de Uraí, mas como Ramires. Ramires é o Kléberson da vez. Aquele jogador que aparece “do nada” meses antes da Copa e encaixa no time com perfeição. Ramires de decretou o fim da linha para Elano no time titular. Só falta Dunga se convencer disso.
