Apito eletrônico, Muricy e Ramires

O pênalti marcado a favor do Brasil contra o Egito resgatou a enfadonha discussão sobre o auxílio eletrônico à arbitragem. Mais enfadonho que a discussão em si, só o argumento de quem é contrário, de que isso tiraria a graça do futebol, a polêmica.

Fico espantado com como o futebol se recusa a incorporar a tecnologia que avança diariamente em várias áreas. O equipamento esportivo evoluiu, a preparação física e a condição dos atletas melhoraram, os estádios (mais em alguns lugares do que outros) se modernizaram, mas a regra, com pouquíssimas alterações, é a mesma de 100 anos atrás. É como se Ferraris, Porsches e Lamborghinis disputassem um campeonato de carros de turismo com regras de corrida de biga.

O melhor exemplo de como o auxílio eletrônico pode tornar o jogo mais justo sem deturpá-lo vem do tênis. O desafio já corrigiu algumas deformidades na arbitragem e virou uma atração à parte no jogo. A tensão do público com a viagem da bolinha eletrônica, o pedido de desafio de alguns tenistas apenas para esfriar a partida… Um show.

Ah, mas ainda é restrito a alguns torneios. Verdade. Nem entre os Grand Slams é unânime, pois Roland Garros ainda prefere o ritual besta de caçar marca de bolinha na argila. Mas onde foi implantado, funciona. E nem por isso passamos a ter dois jogos diferentes.

A Fifa poderia perfeitamente começar com o apito eletrônico nas suas competições. Depois passa aos torneios continentais, a um determinado de ligas mais fortes economicamente, até proliferar. Nunca vai chegar à várzea, mas se conseguir se fixar na primeira divisão de 30, 40 ligas nacionais já estará de bom tamanho. O futebol realmente profissional no mundo não é muito maior do que isso. É a realidade.

O Brasil tem condições de implantar em boa parte dos campeonatos estaduais, talvez até na segunda divisão de um ou outro. A Estônia talvez não consiga nem mesmo adotar na sua liga nacional. Paciência. Melhor assim do que nada.

E não estou falando de um mega-aparato. Pode ser o quarto árbitro com uma tevê numa cabine. Fica predeterminado que cada time pode fazer dois pedidos por tempo, renovando se o pedido for procedente. O capitão vai ao juiz e solicita. O jogo parou, o árbitro chama o quarto árbitro. Ele olha pela tevê – estádio que tiver telão pode até exibir o replay – e a decisão é tomada pelo juiz. Pronto. Justo e indolor.

Acabou, São Paulo

Podem apostar, o Brasil terá um novo campeão brasileiro neste ano. E o São Paulo demora a reencontrar seu caminho.

Mandar Muricy Ramalho embora foi uma burrada. Um comodismo. Uma falta de respeito.

Burrada porque não há gente melhor à solta no mercado. Quando li a notícia da demissão, imaginei até que o São Paulo fosse tentar trazer Abel Braga, que está no Oriente Médio. Contrataram Ricardo Gomes. Qual currículo ele tem? Qual a capacidade de lidar com um elenco claramente mimado? Zero.

E aí começo a falar do comodismo. No intervalo de duas semanas, Washington, Dagoberto, Borges e André Lima reclamaram publicamente de sair do time. Como se tivessem moral para tanto. Dos quatro, só Borges fez o bastante pelo São Paulo para poder reivindicar algo dentro do clube. Os demais têm é que acatar as determinações do técnico quietinhos.

Fora isso, o São Paulo, sempre endeusado por contratar bem, errou a mão feio neste ano. Arouca, Júnior César e Wágner Diniz fracassaram.

Ou seja, jogadores são indisciplinados, reforços não dão certo e a culpa do treinador. Se o São Paulo fosse tão diferenciado como diz ser, reformularia o elenco imediatamente e daria força a Muricy. Mas preferiu mostrar que é apenas mais um na vala comum do futebol brasileiro, vivendo apenas de arroubos de lucidez em meio a um pensamento linearmente tacanho e inconsequente.

E aí entro na falta de respeito. Muricy foi tricampeão brasileiro pelo São Paulo. Sequência mais do que suficiente para ele merecer uma nova chance, receber o crédito de iniciar uma remontagem completa do São Paulo, nem que isso significasse abrir mão de disputar o título brasileiro deste ano.

Já que o São Paulo gosta tanto de se comparar aos europeus, aqui um dado definitivo. Alex Ferguson levou uma década e meia para dar o título europeu ao Manchester. Dar uma quinta chance a Muricy não seria demais.

Faltou o Rogério

De uma coisa tenho certeza. Se Rogério Ceni está jogando, no dia a dia do clube, Muricy não teria sido mandado embora. O São Paulo poderia até cair na Libertadores, mas o elenco não teria se deteriorado dessa maneira. Aos primeiros sinais de rebeldia, Rogério chamaria os jogadores num canto e os colocaria no devido lugar. Em último caso, iria para uma coletiva defender Muricy. Sem o líder, Muricy ficou sozinho contra um grupo mimado.

Enólogo

Para dar uma descontraída, uma história do Ricardo Gomes durante sua passagem pelo Coritiba, em 2001, entre as duas primeiras vindas de Ivo Wortmann ao Alto da Glória. Ricardo jogou em Portugal e na França, países que têm alguns dos melhores vinhos do mundo.

Logo que chegou ao Coxa, Ricardo foi levado ao Mesa Redonda, da CNT. E como todo o participante do programa, recebeu um kit do vinho que patrocinava o mesa (não lembro bem a marca, mas obviamente não se comparava àquilo que o ex-zagueiro consumia na Europa).

Educado, Ricardo agradeceu o presente. Mas logo se desfez dele. Na saída, chamou o assessor de imprensa do clube. “Tem mais uns 10, 12 jogadores que você pode trazer aqui. Só me traz aqui de novo depois que cada um deles passar aqui uma vez. E pode pegar o vinho para você”, disse. Ricardo não durou o suficiente no cargo para voltar ao Mesa.

Ramires

Ainda estou embasbacado com a arrancada de Ramires no segundo gol do Brasil contra os Estados Unidos. Já o vi fazer isso algumas vezes no Cruzeiro, mas na seleção é diferente. A amarelinha pesa e muito craque em clube já se escondeu e ainda se esconde quando canta o hino de chuteiras.

Ramires não. Precisou de alguns minutos para se adaptar à situação, mas quando teve a chance, aproveitou. Percorreu 66 metros entre uma meia-lua e outra, metade do caminho dominando a bola. Não sei em quanto tempo a distância foi cumprida, mas é muito mais rápido que a média dos boleiros.

À velocidade, Ramires aliou técnica. Por confiar em sua resistência de maratonista queniano, sabia que o marcador americano ficaria para trás em algum momento. Quando o cara cansou, pimba. Ramires meteu-lhe a bola entre as canetas e Robinho fez o resto.

Escrevi outro dia que Kléberson poderia pintar novamente na Copa de 2010. Mantenho o que disse, Kléberson estará lá. Não na figura de José Pereira Kléberson, cidadão de Uraí, mas como Ramires. Ramires é o Kléberson da vez. Aquele jogador que aparece “do nada” meses antes da Copa e encaixa no time com perfeição. Ramires de decretou o fim da linha para Elano no time titular. Só falta Dunga se convencer disso.

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O grito de gol

Como escrevi semana retrasada, ao mudar o nome do blog, gigante de concreto armado era uma parte do grito de gol de Lombardi Júnior, maior narrador esportivo do Paraná, morto em janeiro de 1994. Era de arrepiar ouvir o seu grito de gol.

“Coooooooooooooooooooooxa”, gritava, a plenos pulmões, quando o Verdão estufava a rede. Logo entrava o refrão de “Replay”, do Trio Esperança. “É gol/ que felicidade/ É gol/ o meu time é alegria da cidade…”. E o Lombardi retomava. “Boniiiiiiito, Chicão. Alegriiiiiia, alegria, alegria do meu povão coxa-branca. Estremece esse gigante de concreto armador e bota inapelavelmente a primeira bola na cidadela de Marolla. Você, goleiro, cochilou nessa. E vá buscar, se quiser, lá no fundo do baú”. E passava para os repórteres da B-2 darem o detalhe do lance.

A emoção no gol do Coxa era a mesma nos gols de Atlético e Paraná. “Atléticoooooooooooooooooooooo”, disparava quando a festa era rubro-negra. “Boniiiiiiito, Dirceu. Alegriiiiiia, alegria, alegria do meu povão rubro-negro. Estremece esse gigante de concreto armado e bota inapelavelmente a primeira bolas na cidadela de Gérson. Você, goleiro, cochilou nessa. E agora vá buscar, se quiser, lá no fundo do baú.”

Com o Tricolor, quase a mesma coisa. Exceto, claro, o grito de gol – “É Tricolooooooooooooooor” – e o povão alegre com o gol – “Alegriiiiiia, alegria, alegria do meu povão do Tricolor, Tricolaço da Vila”. De arrepiar.

O Lombardi tinha outras tiradas características. Quando a jogada era de perigo, “Tem, tem, tem que ser agora, Serginho”. E entrava uma trilha. “Tem que ser agora, nêga/ Tem que ser agora”.

Lombardi faz muita falta. Certamente estaria narrando até hoje e, com ele, talvez o esporte da Clube ainda existisse e a Acep seria uma entidade realmente representativa da crônica paranaense.

*****

94 foi mesmo um ano triste para o rádio esportivo. Lombardi morreu em janeiro, Osmar Santos teve a carreira encerrada em dezembro. Vítima de um acidente de carro, conseguiu salvar sua vida, mas nunca mais pôde narrar um jogo de futebol.

Lembro bem dele na Copa de 86, na Globo, a primeira da qual tenho memória. Foi também a última no plim-plim antes de o Galvão Bueno virar narrador titular.

Osmar era bom na tevê, mas arrepiava no rádio. Uma metralhadora narrando futebol e o que era mais impressionante: dava para ouvir com clareza absolutamente tudo o que ele dizia. Tem umas figuras à solta hoje que pelo amor de Deus. É dicção ruim, é aquela mania de empostar voz e uma gritaria que não dá para entender nada.

O Osmar não. Era claro, rápido e emocionando. “Ripa na chulipa”, “pimba na gorduchinha”, “bambeou, mas não caiu (para bola na trave)”. E quando o gol era bonito, meu amigo. “Tirulirulá, tiruliruli, eeee queeeee gooooooooooolaço! É do Palmeiras! Gooooooooooooooooool! É lá que a menina mora, Edmundo. É lá que a menina mora, Edmundo. Au, au, au, Edmundo é animal. Au, au, au, Edmundo é animal”, narrava o Osmar.

Passei muitas tardes de domingo curtindo o pai da matéria pelo rádio de ondas curtas.

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E se o Osmar era o pai da matéria, José Silvério era o pai do gol. Apelido dado com propriedade por Milton Neves, quando os dois faziam dobradinha na Jovem Pan. Silvério era o pai do gol porque narrava tão em cima, mas tão em cima do lance que ele conseguia pressentir quando a bola ia entrar e gritava gol antes de ela cruzar a linha.

“Alex, recebeu, driblou, chapéu, saiu Rogério, vai marcar, é gol”, seco, seguido da vinheta da Pan. Gol! Gol! Gol!”. E ele voltava com toda a energia. “E que golaço. GooooooooooooooooooooooooooollllllldoPalmeiras”, gritava, emendando uma palavra na outra, preciso, até parecer que ele ia cair sem fôlego. Entrava o hino do time e voltava o Silvério, descrevendo o lance, até suas finalizações características. “Sobrou pra você, Rogério Ceni” – entrava a vinheta “Vai buscar” – “Pega, que é sua. Oi, Wanderley”, arrematava, para que o Wanderley Nogueira desse o detalhe do gol.

Baita dupla, infelizmente desfeita com a ida do Silvério para a Rádio Bandeirantes. Ficou na Pan o clone dele, Nílson César. O mesmo padrão vocal, mas nem a metade da capacidade do Silvério.

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E no Rio? Vou falar pra vocês. Pra mim não há transmissão mais emocionante no país que o da Rádio Globo carioca. Honra o slogan futebol-show. Com o garotinho José Carlos Araújo no comando, então, a diversão é garantida. Maraca lotado, bola na área e a voz do Garotinho, que narra como se estivesse sempre com um sorriso no rosto.

“Bola pra Romário na entrada da área. Preparou, atirou, entroooooooou”. Flamengo!, entra a vinheta. “Goooooolão, golão, golão, golão. Ro-ro-ro-romário. É do Flamengo!” E segue a descrição do gol, a festa no Maracanã, o relato do Gílson Ricardo terminando com “Queeeeee, zueira!”.

No Rio, aliás, gritar gol pura e simplesmente não tem graça. Tem que ter uma característica própria. Ary Barroso tocava uma gaitinha para avisar que a bola entrou. Edson Mauro solta um “Bingo! Bingo! Bingo!”. Nem sempre dá certo, é verdade. Outro dia ouvi um cara na CBN Rio soltar um “Que lindo!”. Ah, se liga, meu. Palha no último.

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Nada mais original, porém, que o Gomes Farias, da Verdes Mares, a Verdinha lá do Fortaleza. “Meteeeeeeeeeeeeu. Rá-rá. Gooooooooool, di pai dégua”. Hilário.

Como também são hilários e caricatos os narradores gaúchos e seu gauchismo exacerbado. Sem vinhetas por trás do gol, Pedro Ernesto Denardin, Daniel Oliveira, Haroldo de Souza e outros abusam da criatividade, ainda mais quando é o Rio Grande do Sul contra os outros.

“O Inter está rasgando a camisa do Barcelona! Está cortando os cabelos do Puyol! o Puyol está carequinha”, gracejou o Denardin na Gaúcha, na final do Mundial de Clubes de 2006. “Se cuida, São Paulo. Aqui é terra de gaúcho. Aqui é terra de povo macho”, provocou Oliveira na Band, em um Grêmio e São Paulo pela Libertadores.

Ou o grande Carneiro Neto, com quem tive a alegria de dividir transmissões na CBN e tenho o prazer de trabalhar aqui no jornal. “Gooooooooooooooolédissoqueopovogosta”, gritava, num fôlego só, ao ver Coritiba, Atlético ou Paraná balançar a rede. Sem falar nas tiradas divertidíssimas do Carneiro durante a transmissão. Sempre um banho de ironia, sarcasmo e conhecimento.

Como eu gosto de rádio. Não imaginam o quanto. Pena que hoje seja cada vez mais difícil manter o fone no ouvido com tanto narrador que confunde velocidade com atropelo e bom humor com futilidade. O rádio não é mais o mesmo. Ou talvez eu que esteja ficando velho.

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Paixão de pai para filho

Conforme prometi, segue o texto escrito para o G Ideias.

A frase corre como um código de ética secreto entre os torcedores. O sujeito pode mudar de partido político, religião, mulher e até de sexo, mas jamais torcer para outro time. Uma fidelidade rara, talvez movida pelo medo de encarar nos olhos como adversário aquele que até outro dia era seu companheiro de arquibancada. Mas o que justifica amor tão convicto, sem direito a substituição?

Muitas vezes a paixão vem do berço, ou antes mesmo dele. Em países apaixonados pelo futebol como o Brasil, é comum se escolher o time de coração antes mesmo do nome da criança.

Foi assim com o deputado federal Gustavo Fruet. Antes mesmo de ser Gustavo ele já era coxa-branca. Influência do bisavô, Constante, presidente do Coritiba em 1916, ano do primeiro título estadual; do avô, Abílio, jogador do clube nos anos 40; e do pai, Maurício, ex-cronista esportivo e prefeito de Curitiba em 1985, ano em que o título brasileiro ficou no Alto da Glória.

“É o meio. Influência de pai para filho”, explica o deputado, que ainda guarda escritos sobre os jogos do Coxa de quando era criança. “Fazia um diário, com anotações das partidas e o ingresso.”

Fruet teve a oportunidade de acompanhar de perto o período mais vitorioso do clube, nos anos 70 (oito títulos estaduais em dez anos), e esteve no Maracanã assistindo à final de 85, contra o Bangu. “Invadi o campo e peguei um pedaço da rede”, confessa, aos risos.

Na volta à capital paranaense, outra história mostra o poder alviverde na casa dos Fruet. “No dia seguinto ao jogo (1º de agosto), seria inaugurada a primeira agência do Citibank em Curitiba. Meu pai e eu estávamos no trio elétrico que seguia o caminhão dos bombeiros com o time. A carreata parou ao lado da agência, meu pai fez a inauguração e seguimos para o estádio”, relembra.

A relação paternal também decidiu em qual arquibancada o publicitário Ernani Buchmann se sentaria por toda a sua vida. Seu pai, Arino, era torcedor do Fluminense, o que excluía qualquer possibilidade de a escolha paranaense ser o rubro-negro Atlético. Torcer para o Coritiba nos anos 40 era ato quase restrito a alemães, italianos e seus descendentes. Tricolor como o Flu e campeão estadual em 1944, o Ferroviário foi uma escolha natural para Arino e, por consequência, para Ernani.

Paixão que cresceu com o tempo e mudou de nome duas vezes. Em 1971, Buchmann cobriu como repórter esportivo a fusão entre Ferroviário, Britânia e Palestra que resultou no Colorado. Dezoito anos depois, como dirigente, foi um dos pivôs da união entre Colorado e Pinheiros, embriões do Paraná, clube do qual foi presidente.

Mudanças incapazes de diminuir sua paixão pelo Tricolor, tampouco de tirar da memória as lembranças da primeira partida que assistiu na Vila Capanema, nos anos 50, entre Ferroviário e Caramuru de Castro.

“A Vila havia sediado a Copa, era uma coisa mitológica. Acabei prestando mais atenção no ambiente, na torcida. Aquelas pessoas dizendo que o Izauldo (atacante da época) não podia jogar ou irritadas com o Afinho (ídolo tricolor nos anos 50) porque ele tinha ido jogar no Atlético”, conta. “E hoje, veja só, temos um ex-presidente do Paraná indo ser dirigente do Atlético. Prova de como as coisas eram inocentes naquela época”, emenda, citando Ocimar Bolicenho, principal nome no organograma paranista em 1994 e 95 e agora coordenador de futebol do Rubro-Negro.

Diferentemente de Fruet e Buchmann, o escritor Cristóvão Tezza, colunista da Gazeta do Povo, não herdou de seu pai a paixão por um clube de futebol. Nascido em Santa Catarina, mas morador de Curitiba desde os 7 anos, aproximou-se do Atlético por influência dos colegas do Colégio Estadual do Paraná.

Sempre atento ao time, nunca foi muito de frequentar estádios. Foi pelo rádio, por exemplo, que vibrou com as façanhas de Assis e Washington, o casal 20 que deixou o Furacão a um gol da final do Campeonato Brasileiro de 1983.

O namoro contido virou paixão avassaladora graças a Felipe, filho do escritor e portador de Síndrome de Down, hoje com 28 anos. “Torcer pelo Atlético tornou-se um fator socializante para o Felipe e que acabou me levando junto. Hoje sou mais um fanático pelo Atlético”, conta.

O escritor ainda se surpreende com o poderio social do futebol, que ele define como um fenômeno cultural fantástico e misterioso. Presente em seus textos, seja nos relatos de consultas com o dentista coxa-branca ou no acompanhamento das partidas, o Atlético só não é tema exclusivo das crônicas por consideração à variedade do público.

“Me controlo, senão falo exclusivamente do Atlético. É o meu lado irracional. Quando começo a falar de futebol eu sou um perigo”, diz, às gargalhadas.

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Ao vivo e sem cortes

Moçada, fiz um esquema legal lá no AV hoje.  Um live blogging de Paraná x Ceará. Claro, não é novidade. Live blogging é tão manjado que, de certa forma, ajudou a conceber o Twitter. Mas como pra mim é brinquedinho novo, vou me divertir e fazer um aqui no gigante.

Obviamente não tem nada passando ao vivo nos canais esportivos. Mas mesmo assim a coisa promete. Vamos lá.

1h41 – Eis o cardápio. Sportv2: Cine Impacto. Sportv: reprise do Arena. ESPN Brasil: reprise do Pontapé Inicial. ESPN: Planeta EXPN. Bandsports: Por dentro da bola.

1h43 – Conceitual o tal do Cine Impacto. Pearl Jam rolando no fundo (só Eddie Vedder e violão) e um magrinho dropando as ondas. Sim, é sobre surfe.

1h44 – Viajandão o Cine Impacto. O cara uma hora tá andando no mato, outra tá na onda. Rola umas luzes vermelhas e um off gravado por ele mesmo contando que a prancha foi presente do pai. E agora pintou uma imagem do Buda. Viagem pura. Passa uma bola, parceiro.

1h47 – Tô ficando chapado só de ver esse filme. Vou para coisas mais pesadas. Arena Sportv.

1h48 – Wágner Villaron, Muller, Cléber Machado e… Milly Lacombe? … Não, peraí, é a Magic Paula. Estão falando do Adriano. Alguém logo vai soltar uma pérola.

1h49 – Debate polarizado entre Muller e Cléber Machado. Alguém desavisado acharia que é o programa do RR Soares, tal a vestimenta dos dois.

1h50 – Oscar Ulisses e a voz da sabedoria: O que é combinado não é caro. Próximo.

1h51 – Cléber: Ou o Cuca não manda nada ou Adriano faz o que quer. Tipo, não saquei a diferença.

1h53 – Pontapé inicial. Time reserva, João Carlos Albuquerque e Rodrigo Bueno. Sem o Trajano o programa perde muito do imponderável, daquela sensação de que a qualquer momento um vulcão pode entrar em erupção perante nossos olhos.

1h54 – Ops, faltou aquela combinação switcher-bancada. João chamou o vetê do Gilberto, ex-seleção, falando sobre maçã e entrou o cara falando sobre manjericão. Ah, se o Trajano tá ali…

1h56 – Opa, caneca do América na mesa. Trajano de alguma forma representado.

1h57 – Dado interessantíssimo. Com os 97 milhões de euros pagos pelo Cristiano Ronaldo dá para comprar um Big Mac para cada habitante do Canadá. Realmente eu não podia dormir sem essa.

1h59 – Opa. Já estamos no Planeta EXPN: Mundo em duas rodas.

2 h – Dobradinha básica dos programas de ação: rock pesado e belas imagens (slow motion, velocidade normal, acelerado). Tudo isso alternado com o personagem da matéria falando. Não tem repórter na matéria.

2h01 – Manjei. São dois imãos e o pai banca a dupla nas pistas de motocross. Agorinha apareceu a dupla dirigindo uma baita caminhonete. É moleque criado a leite com pêra e ovo maltino.

2h02 – Acabou o programa. Vem aí a atração que eu passei a semana inteira esperando: VT de Finlândia x Rússia.

2h04 – Já estamos no Por Dentro da Bola. Sílvio Luís, Pintado e Henrique Guilherme estão ali.

2h05 – Henrique Guilherme parece um estilista com essa cabelinho batido e cavanhaque. Um lu-xo!

2h06 – Cosme Rímoli também está ali. No fundo da redação tem um carinha coçando o nariz.

2h07 – Cara, tem um fantasma no estúdio?

2h08 – Penduraram uma camisa branca em alguma coisa ali, parece até que furaram os olhinhos. Ainda não saquei a marotice.

2h09 – Corporativismo detected. Cosme começou a criticar o Luxemburgo e o Pintado entrou de carrinho. Aquela ladainha de técnico vive o time 24 horas por dia, não gosta de perder e a opinião da imprensa influencia a torcida e blábláblá. Não quer pressão, vai vender água de côco na praia, bróder.

2h11 – Bola rolando no Estádio Olímpico de Helsinque. Finlândia x Rússia em videoteipe. Narra Luís Carlos Largo, comenta Alexandre Oliveira. Esse só pega as picas. Campeonato Holandês 7 da manhã, futsal, Albacete x Logroñes…

2h14 – Cacete, Litmanen ainda joga!

2h15 – Camisa invocada da Rússia. Saca só.

russia

2h17 – Informa o Largo que o Equador vence a Argentina por 2 a 0. Ou seja, é VT do VT. Parei.

2h18 – Volto ao Pontapé, já na reta final. Estão no melhor da semana. Acabou de rolar um Hit the road, Jack, com Ray Charles. Sensacional.

2h19 – De volta aos catedráticos do Arena.

2h23 – Zzzzzzzzzzzz…

2h24 – Cá estou de novo no Cine Impacto. O nosso herói está sapateando sobre o pranchão numa onda de uns três metros. Ainda não vi mulher nesse filme de surfe.

2h25 – Filosofar não faz mal a ninguém, então o figura fala do profissionalismo, de pegar onda por prazer e que alguns esqueceram as raízes.

2h28 – O filme tá acabando. Saca só a armação. Fizeram uma imagem de um avião pousando, trazendo a prancha do cara depois de um tour pelo mundo. Poesia pura na madrugada. Mais umas cenas de dropadas, tubos, música instrumental. Daqui a pouco sobem os créditos.

2h30 – Vem aí mais um VT. Palmeiras x Botafogo no Showbol. Promessa de grandes emoções e do resgate de pernas de pau inesquecíveis.

2h31 – Acabou com o cara colocando o pranchão à venda e se perguntando se ela vai cair nas mãos de um moleque que não vai saber o que fazer com ela ou de um que vai elegê-la como favorita. Fala sério. Ah, o título da parada é singlefin: yellow.

2h33 – Fim da reprise do Arena também. Pelo jeito o momento é de transição. Então segue um Ray Charles pra galera.

2h34 – Agora a reprise do Sportscenter, com o Antero e o Amigão falando da festa dos africanos para a seleção. Vou te falar: uma das cenas mais bacanas que vi nos últimos anos. Me fez lembrar por que amo o futebol.

2h35 – Muricy com os cascos afiados. Chamou os repórteres do fofoqueiros e candinhas.

2h40 – Putz, perdi a reprise da reprise do gol da Rússia. Sou um idiota mesmo.

2h41 – Massa que o Silvio Luís vai despejando os e-mails lidos pelo chão do estúdio. Tem uma pilha do lado da cadeira dele.

2h42 – Silvio Luís imitou um cuco, falou que são dez pras quatro e que o Cosme vai dar um furo.

2h45 – Nada demais. Falou da lesão na coxa do D’Alessandro. Vão sortear uma feijoada agora.

2h46 – Silvio Luis passando cantada na colega de trabalho. Disse que o óculos deixa ela sexy e tascou um beijo na bochecha dela. Silvião sempre de olho no lance.

2h48 – Desvendado o mistério. Não era um fantasma, mas sim um manequim com a camisa da Ponte e um boné do Bandsports. Pirei.

2h49 – Silvio Luís batendo um lero com a camisa da Ponte. Disse que a camisa não vai muito longe e torceu para que ela dê sorte à ganhadora para ela arrumar um namorado. Barbaridade.

2h50 – Moçada, a coisa esfriou. Acabou o Por Dentro da Bola e vem aí um programa de F-Truck. O Sportscenter ainda está no começo, e reza a lenda que o amigão e o Antero só piram no fim. Boa chance hoje, pois é o último programa com cenária velho. Finlândia e Rússia seguem no VT sonolento. Ah, tem o showbol. Vamos lá.

2h55 – Oséas tem pouco cabelo na frente, mas mantém a trancinho invocada atrás.

2h56 – Eis que identifico na meta do Fogão Wágner e sua eterna cara de porteiro de prédio de novela.

2h57 – Não param de aparecer figuras mitológicas em campo. Andrei enverga a 4 do Palmeiras.

2h58 – Saca só o técnico do Botafogo: Maurício, o herói do título de 89. E Sérgio está no gol do Parmêra.

3h02 – Rogério Pinheiro marca para o Botafogo. Agora fiquei com medo desse showbol. Melhor encerrar as transmissões e avisar que, a qualquer momento, o gigante de concreto armado volta com a transmissão ao vivo de alguma coisa inútil.

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Paixão eterna

Não sou muito de colocar os mesmos posts aqui e no AV, mas esse até justifica. Fiz uma matéria de apoio para o GIdeias deste sábado, sobre a paixão do ser humano pelo seu time de futebol. Ouvi um coxa, um atleticano e um paranista conhecidos e contei a história de como eles se tornaram coxa, atleticano e paranista, respectivamente. Vou fazer um suspensezinho e deixar o texto completo para sábado. Por ora, publico o que cada um deles falou, no formato de declaração mesmo. Espero que gostem. Ah, e quem quiser, por favor, sinta-se à vontade para contar nos comentários como virou torcedor do seu time.

Cristóvão Tezza, escritor.

“Me tornei atleticano no final dos anos 60, por influência de amigos do Colégio Estadual do Paraná. Sempre mantive atenção pelo clube, mas no começo não era uma paixão”

“Lembro do Assis e do Washington nos anos 80, do jogo histórico com o Flamengo. Acompanhei pelo rádio”

“Depois dos anos 80, com o nascimento do meu filho, que é portador de Síndrome de Down, passei a acompanhar mais de perto. Torcer pelo Atlético tornou-se um fator socializante para o Felipe e que acabou me levando junto. Hoje sou mais um fanático pelo Atlético”

“Acompanho como torcedor e estudioso. É impressionante a coesão social promovida pelo futebol, um fenômeno cultural fantástico e misterioso que toca todo o mundo. Só não nos Estados Unidos”

“Me controlo, senão falo exclusivamente do Atlético nas crônicas”

“É o meu lado irracional. Quando começo a falar de futebol eu sou um perigo”

Ernani Buchmann, publicitário.

“Meu pai torcia pelo Fluminense e naturalmente tinha uma implicância com o Flamengo. Não havia condescendência com rubro-negros em casa, então automoticamente descartei o Atlético. O Coritiba tinha a torcida muito consolidada dentro do espectro social de alemães e italianos, sendo que o Ferroviário foi uma saída natural”

“Tinha o melhor estádio. A Baixada era acanhada, o Couto, na época Belfort Duarte, era todo de madeira. A Vila havia sido sede de Copa do Mundo, uma coisa meio mitológica”

“Comecei minha carreira como repórter esportivo cobrindo o Água Verde, que logo mudou para Pinheiros. Na mesma época, houve a fusão entre Ferroviário, Britânia e Palestra, resultando no Colorado. Todos os ferroviários, em regra, viraram Colorado, mas surgiu um problema. O Colorado decidia todos os campeonatos. E perdia todos para o Coritiba. Meu pai mesmo virou simpatizante do Coritiba”

“Depois virei dirigente do Colorado e como vice-presidente participei ativamente da fusão com o Pinheiros. Foi uma sequência natural das coisas, mas por uma imposição coronariana não havia como torcer por Coritiba e Atlético”

Meu primeiro jogo no estádio foi na metade dos anos 50, Ferroviário x Caramuru de Castro. Achei tudo muito bacana, mas acabei prestando mais atenção no ambiente, na torcida. Aquelas pessoas dizendo que o Izauldo (atacante da época) não podia jogar ou irritadas com o Afinho (ídolo tricolor nos anos 50) porque ele tinha ido jogar no Atlético”

“E hoje, veja só, temos um ex-presidente do Paraná indo ser dirigente do Atlético. Prova de como as coisas eram inocentes naquela época”

Gustavo Fruet, deputado federal.

“É o meio. Influência paterna. Meu bisavô, Constante Fruet, foi presidente do Coritiba em 1916, ano do primeiro título estadual. Meu avô, Abílio Fruet, defendeu o time nos anos 40. E meu pai, Maurício, foi cronista esportivo.”

“Peguei um período de muitos títulos. Tenho guardado até hoje, fazi o diário dos jogos, com anotações e o ingresso”

“Na escola mexia muito o fato de ser coxa-branca. Fazíamos Atletiba todo dia depois da aula”

“Invadi o campo e peguei um pedaço da rede do Maracanã. No dia seguinto ao jogo (1º de agosto), seria inaugurada a primeira agência do Citibank em Curitiba. Meu pai e eu estávamos no trio elétrico que seguia o caminhão dos bombeiros com o time. A carreata parou ao lado da agência, meu pai fez a inauguração e seguimos para o estádio”

“Assisti no estádio às finais do Paranaense de 77. Perdemos para o Grêmio Maringá lá e empatamos no Couto por 1 a 1, o Aladim perdeu um pênalti. Outro dia encontrei o Aladim e falei: ‘Pôxa, Aladim, você traumatizou uma criança’. Teríamos sido heptacampeões”

“Sempre trago um monte de caneta e chaveiro para Brasília e distribuo. Entreguei um até para o Rafael Cortez, do CQC, que veio me entrevistar sobre a gripe suína, ficamos uns cinco minutos falando de futebol. As pessoas me identificam como coxa-branca, talvez seja o único na Câmara”

“Trago para o meu dia a dia a passionalidade do torcedor, aquilo de fazer tudo com mais emoção”

“E os meus três sobrinhos, veja só, são todos atleticanos”

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Scolari, o fujão

Aproveitando essa história do Felipão, desovo aqui um texto falando da passagem dele pelo Coritiba, em 1990. Três jogos, três derrotas. No pé tem a ficha dos jogos. Saca só o naipe dos times.

Em 27 anos de carreira no banco de reservas, Luiz Felipe Scolari tem apenas duas demissões: do CSA, em 1982, e do Chelsea, no início de fevereiro deste ano. Mas é a saída do Coritiba, em 1990, um dos episódios mais pitorescos da trajetório treinador. Uma passagem curta, fracassada e renegada pelo próprio Felipão, que nem sequer a inclui no seu currículo.

Scolari durou apenas três jogos no Alto da Glória. Derrotas para Juventude (2 a 0 em Caxias do Sul), Joinville (4 a 0 em Santa Catarina) e novamente para o Juventude (2 a 0 no Couto Pereira). Ao término da terceira partida, em meio a cobrança da torcida aos jogadores e diretoria, Felipão buscou sua mala no vestiário e atravessou tranquilamente o gramado.

“Imaginamos que ele tinha ido cumprimentar alguém do Juventude. Mas o tempo foi passando, ele não voltava, não voltava, não voltava, aí fomos atrás. E descobrimos que ele tinha subido no ônibus do Juventude e voltado para Caxias do Sul”, conta João Jacob Mehl, presidente do Coritiba na época, um dos piores momentos da história do clube.

Um ano antes, o Alviverde havia montado um time que até hoje é lembrado pelos seus torcedores como um dos melhores já montados no Alto da Glória. Tendo como destaque um meio de campo formado por Osvaldo (ex-Ponte Preta), Serginho, Tostão (ex-Cruzeiro) e Carlos Alberto Dias (que brilharia pelo Botafogo), o clube ganhou com facilidade o Campeonato Paranaense e sonhou com a repetição do título nacional de 85.

O bicampeonato, porém, ruiu em uma decisão errada da diretoria, que recusou-se a viajar até Juiz de Fora (MG) enfrentar o Vasco, cumprindo punição pela agressão de um torcedor ao goleiro Rafael, herói de 85 e então no Sport, em um jogo no Couto Pereira. O Coritiba acabou eliminado da competição e rebaixado pela CBF.

Em 90, as coisas pioraram ainda mais. O fechamento dos bingos ordenado pelo governador do Paraná, Roberto Requião, e o confisco da poupança no início do governo Collor eliminaram as duas principais fontes de receita do clube. Em campo, o título estadual foi perdido para o rival Atlético, com direito a gol contra. E na Série B, a crise explodiu com uma derrota por 1 a 0 em um Atletiba, no Couto Pereira, que custou o emprego do técnico Paulo Cezar Carpegiani.

Foi nesse cenário que Felipão chegou ao Coritiba. Seu nome nem aparecia na lista de possíveis treinadores, encabeçada por Ênio Andrade, campeão em 85, e composta ainda por Edu Coimbra, Antônio Lopes, Levir Culpi, Sérgio Cosme, Valdir Espinoza e Jorge Vieira. Todos recusaram, e a opção foi recorrer ao gaúcho que comandava a seleção do Kwait.

A principal credencial de Felipão era o profundo conhecimento que ele tinha do futebol do Sul, de onde eram os adversários alviverdes na primeira fase da Série B – Atlético, Juventude, Joinville, Blumenau e Criciúma. Já na chegada, ao falar do seu perfil, deu mostras do estilo que guiaria todo o seu trabalho.

“Não pretendo impedir que a equipe dê shows, mas não abro mão da competitividade, do futebol com garra. Na segunda divisão não se pode jogar como na primeira”, discursou na apresentação.

Na prática, porém, Felipão não conseguiu implantar o seu estilo. O leve elenco alviverde não assimilou bem a exigência por mais marcação e ídolos da torcida, como o meia Tostão e o ponta-esquerda Pachequinho perderam espaço.

“Ele queria que todo mundo marcasse, e nosso time era de toque de bola. Além disso, o Felipão veio com o lado psicológico bem abalado. Estava muito nervoso, na preleção só falava dos outros times, brigou com jogador em campo”, relembra Tostão.

A turbulência, então, logo chegou ao gramado. A derrota na estreia, para o Juventude, foi creditada ao pouco tempo de trabalho. A goleada para o Joinville fez o treinador pedir demissão no vestiário. A diretoria não aceitou. O revés em casa foi o fim da linha para Felipão.

No dia seguinte, sete jogadores (entre eles o goleiro Mazaropi e o volante Bonamigo) e o diretor de futebol Gilberto Serpa deixaram o clube, em um claro indício de que Felipão era um dos menos culpados pela situação. Prova disso foi o rebaixamento à Série C, que o Coxa só não jogou no ano seguinte porque a CBF extinguiu a competição.

“Era uma barca. O clube não tinha dinheiro, havia acabado de cair para a segunda divisão, uma fumaça danada. Era aquela história: a diretoria fingia que pagava e a gente fingia que jogava”, conta Bonamigo, que durou no clube os mesmos três jogos que Felipão.

Uma impressão semelhante à de quem dirigia o clube na época. “Não tinha técnico que desse jeito, que administrasse um grupo de jogadores acostumado a fartura, a salário em dia e que do dia para noite se viram sem dinheiro”, afirma Jacob Mehl, que até hoje admira Scolari, com quem mantém bol relacionamento e considera um dos profissionais mais honrados com que já trabalhou no futebol. “Ele nunca voltou nem para receber o que o clube lhe devia.”

Juventude 2 x 0 Coritiba

Data: 8/9/1990. Local: Estádio Alfredo Jaconi (Caxias do Sul). Gols: Cláudio Abade, aos 6/2º; Nenê, aos 46/2º.

Juventude

Beto; Marcão, Élton, Amarildo e Gilmar; Candeias (Nenê), Mastrillo e Pedro Haroldo; Nelsinho, Cláudio Abade e Pichetti. Técnico: Hélio dos Anjos.

Coritiba

Mazaropi; Polaco, Berg, Jorjão e Paulo César; Norberto, Bonamigo e Tostão; Cuca (Ronaldo), Chicão e Pachequinho (Moreno). Técnico: Luiz Felipe Scolari.

Joinville 4 x 0 Coritiba

Data: 15/9/1990. Local: Estádio Ernesto Schlemm Sobrinho (Joinville). Gols: Capanema, aos 37/1º; Vandick, aos 32/2º; Everaldo, aos 38/2º; Nardela, aos 41/2º.

Joinville

Gilmar; Toninho, Adílson, Everaldo e Joel; Ademir, Nardela e João Carlos; Capanema (Sidney), Izaias e Gìlson (Vandick). Técnico: Borba Filho.

Coritiba

Mazaropi; Polaco, Berg, Jorjão e Paulo César; Norberto, Bonamigo e Tostão; Ronaldo (Moreno), Chicão e Carioca (Pachequinho). Técnico: Luiz Felipe Scolari.

Coritiba 0 x 2 Juventude

Data: 23/9/1990. Local: Estádio Couto Pereira (Curitiba). Gols: Amarildo, aos 37/1º; Pichetti, aos 14/2º.

Coritiba

Mazaropi; Polaco, Berg, João Pedro e Paulo César (Marcelo); Gérson Gaúcho, Bonamigo (Ronaldo) e Tostão; Cuca, Moreno e Aurélio. Técnico: Luiz Felipe Scolari.

Juventude

Beto; Marcão, Elton, Baiano e Amarildo; Candeia, Pedro Haroldo e Mastrillo; Dido (Nenê), Cláudio Abade e Pichetti. Técnico: Hélio dos Anjos.

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Felipão no Usbequistão é um retrocesso

Luiz Felipe Scolari foi traído no Chelsea pelos caprichos de um bilionário que vê no futebol uma simples diversão. Quando contratou o brasileiro, Roman Abramovich havia prometido montar um esquadrão em Stanford Bridge. Até foi buscar Deco, flertou com Robinho, mas logo recuou. Pior, deixou ir embora valores como Shawn Wright-Phillips. Felipão não só ficou sem os reforços que queria como recebeu um elenco reduzido. Quando as coisas começaram a não ir bem, Abramovic ficou ao lado de jogadores como Drogba, a quem costuma receber na sua sala, e deixou o treinador na frigideira, até ser demitido.

Agora, Felipão vai se meter com outro playboy brincando de fazer futebol. Isok Akbarov é o bilionário presidente do Bunyodkor. Ano passado, o dirigente resolveu colocar seu time no mapa do futebol mundial. Mudou o nome do antigo Kuruvuchi. Paga US$ 7 milhões anuais para Rivaldo. Ofereceu 25 milhões de euros por Samuel Eto’o. Desembolsará 13 milhões de euros por 18 meses de Felipão. E já elegeu como próximo alvo Luís Figo (as duas últimas informações, segundo a imprensa portuguesa). Isso num país em que o salário médio é de 40 euros e 40% da população está desempregada.

Akbarov vai brincar de futebol enquanto tiver vontade. Quando se encher, manda Rivaldo e Felipão passearem e vai se envolver em outra brincadeira. Talvez resolva construir uma pista de corrida e convença Bernie Ecclestone a levar a Fórmula 1 para lá.

Felipão não precisava fazer isso com a sua carreira. Não é mais um principiante que precisa desbravar mercados, como fez no Oriente Médio durante os anos 80. Se está queimado na Inglaterra, teria mercado em Portugal, onde o Benfica revelou interesse em contratá-lo, ou até mesmo na Europa. Em último caso, poderia voltar ao Brasil. Bastaria dizer que esperava uma proposta para trabalhar no país que choveriam convites em poucas horas.

A volta para casa, porém, só acontecerá entre 2010 e 2011, depois da aventura usbeque. Tomara que até lá sua vitoriosa carreira não tenha sido manchada por mais uma pessoa que vê o futebol apenas como diversão, não como meio de vida.

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Odeio segunda-feira

Bons tempos em que segunda-feira era dia de tirar sarro dos rivais. Pátios de escola, corredores de universidades, fumódromos e cafezinhos, todos em polvorosa com o terceiro tempo dos jogos do fim de semana. Só o nosso time vencer era a glória. Material farto e sem contra-argumentos para pegar no pé dos colegas. Se todo mundo vencesse, o lance era valorizar o nosso adversário e esculachar o oponente do rival. Bons tempos…

Agora, ninguém nem mais lembra como é isso. As entradas de escolas e universidades são tristes, quase um ritmo marcial, compassado e silencioso até a sala de aula. Dizem que o índice de tabagismo nas repartições até baixou neste outono e o cafezinho tem cumprido um triste ciclo. Do bule pra térmica, da térmica pro ralo. Até reduziram o número de garrafas. É a crise. Não a marolinha econômica. Mas o tsunami que assola nossos times.

Os mais espirituosos coxas e atleticanos ainda riem da própria desgraça. “Semana que vem eu te devolvo a lanterna e as pilhas” é a frase que mais se ouve, sempre acompanhada de um sorriso amarelo ou de um riso nervoso. Os paranistas, maltratados com tantas lambadas nos últimos tempos, ainda desconfiam das vitórias seguidas. Têm a impressão, lá no fundo, de que é apenas mais uma arremetida. Ainda assim, já há quem se arrisque a dizer, timidamente, que o Tricolor será o estado na Série A em 2010, enquanto a dupla Atletiba voltará à Segundona.

Que Deus só ouça a primeira parte, embora pareça que sua audição teima em escutar claramente a segunda e nada além disso. É a pior crise do nosso futebol em uma década e meia. O clímax de um processo de deterioração lento e mortal, iniciado enquanto ainda colhíamos as glórias dos bons tempos.

Autoritarismo de uns, prepotência de outros, submissão de um grupo ali ou acolá e o cenário é este. Times fracos, técnicos de segunda mão, diretorias que não entendem de futebol, dependência de empresários, eliminações honrosas como nossos maiores feitos e torcedores que nem tem mais o sagrado direito de tirar um sarrinho do rival na segunda-feira.

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Churrasco com futebol

Taffarel; Djalma Santos, Bellini, Aldair e Nílton Santos; Falcão e Gérson; Tostão, Ronaldo, Romário e Pelé.

Alcatra; Maminha, Cupim, Costela e Peru com Bacon; Coração, Linguiça, Fraldinha na Mostarda e Picanha; Mignon e Filé Argentino.

Duas seleções de respeito. A primeira, um mix de jogadores que defenderam o Brasil em Copas do Mundo. A segunda, um time de sonhos do espeto corrido.

Não sei vocês, mas duas das coisas que eu mais gosto nessa vida são futebol e churrasco. Combinar os dois, então, é golaço bem temperado. Poucos são os dias em que consigo conciliar essas duas paixões. Hoje, graças a um conjunção astral única (também chamada de folga), conseguirei fazer essa tabelinha. Na verdade, uma triangulação no melhor estilo Messi, Eto’o e Henry: jogo da seleção, churrasco, Corinthians x Coritiba. (Ok, Timão x Coxa está mais para Gudjohnssen que para Henry, mas é o que temos. Não reclame!).

Não sei se é empolgação minha, mas comecei a ver algumas semelhanças entre um bom churrasco e um bom time de futebol. Será? Bem, saque aquela latinha de cerveja trincando de gelada do fundo do isopor e siga o raciocínio.

Alcatra

Ninguém vai a um estádio de futebol ver um bom goleiro. E ninguém vai a uma churrascaria pedir alcatra. “Essa até eu pegava”, diz o torcedor diante do frango do guapo. “Alcatra eu como em casa”, vocifera o cliente perante aquele corte marginalizado. Resumindo: goleiro bom e alcatra bem temperada são obrigação. Mas vai aguentar a bronca do freguês quando um dos dois perde o prumo.

Maminha

Delicada, magra e suave, ideal para aquela degustação rápida. A “prima pobre” da picanha faz sucesso no espeto como um bom lateral-direito: sutil, veloz e surpreendente. Ideal para fazer aquela tabelinha com o mignon.

Cupim

Encorpado e pesado, mas de respeito. É o cupim ou é um bom zagueiro-central? Na minha opinião, os dois. Muita gente torce o nariz para a truculência de ambos, mas não tem time nem rodízio completo sem eles.

Costela

Muita gente acha que sabe fazer costela. “É só botar o osso pra baixo, colocar sal grosso, embrulhar no celofane e esquecer no fogo”, dizem os “entendidos”. Muita gente também acha que é fácil ser quarto-beque. É só ficar ali atrás, esperando a bola sobrar. “Se mata no peito, é gênio! Se dá um bicão, é xerife!”, vaticinam os “comenteiros”. Engano duplo. Para uma boa costela é preciso saber escolher o corte, fazer um fogo bom, repor o carvão na hora certa e dar aquela abafada na churrasqueira para a peça cozinhar melhor. O mesmo vale para o quarto-beque. Tem de saber escolher a hora de dar o bote, se posicionar bem, pressentir a hora do chutão ou da saída com a bola e ter personalidade para sair no abafa em cima de árbitros e adversários.

Peru com bacon

A leveza do peru com o alto colesterol do bacon. A dureza da marcação com o discernimento para ir ao ataque e soltar um canhão com a canhota. És peru com bacon na mesa e lateral-esquerdo no campo.

Linguiça e coração

A dupla inseparável, como tem que ser um bom par de volantes. A crítica ama criticá-los, seja na mesa, seja no campo. A dupla perfeita para abrir o apetite num rodízio e também para fazer o jogo passar da defesa ao ataque. Linguiça para fazer o trabalho sujo de marcação e coração para dar aquela dose de intensidade que todo o time precisa.

Fraldinha na mostarda

Fraldinha é a mais versátil das carnes. Perfeita na grelha, joga bem assada no forno, cozida, em bife, com molho, até moída. Sempre com cuidado, pois basta um segundo de descuido para ela passar do crua ao muito passada. É o meia dos tempos modernos. Tem que ser versátil. Voltar para marcar se for preciso, mas sabe se deslocar pelos lados, encostar nos atacantes para a tabela e chutar a gol. Acima de tudo, tem que saber jogar, senão sua polivalência em um segundo se torna problema para o time, que passa a ter um jogador atrapalhando em todas as posições. Alguns ainda conseguem se diferenciar com um drible estonteante e apimentado, como uma boa fraldinha na mostarda.

Picanha

É o craque do time. Seu talento é tamanho que uma gordurinha não só é aceita como bem-vinda. Melhor se for servida em cortes finos e malpassados, como a sutileza e a simplicidade que se espera dos dribles e passes de um bom camisa 10.

Mignon

Enxuto, leve e saboroso. O mignon é raro nos rodízios e, por isso mesmo, muito admirado. Como os atacantes de velocidade, lisos e dribladores, capazes de humilhar o marcador com uma ginga de corpo. Faz uma tabelinha esperta com a maminha.

Filé argentino

Por muito tempo ignorado, ganhou status de obrigatório de uns anos para cá, algo capaz de diferenciar as boas e as más churrascarias, os bons e os maus times. Mais encorpado que o filé nacional, é perfeito para romper a fome na hora do almoço e a zaga adversária em jogos mais complicados.

A todos, bom churrasco e bom jogo.

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O dia em que Carpegiani pirou

Eu sei, a data certa era 4 de junho. Mas como só agora consegui estacionar na frente do laptop para blogar e ainda não fui dormir (tecnicamente, portanto, ainda é quinta-feira), vou contar a história assim mesmo. Se você ainda não associou o post à data e à relevância histórica, azar. Vou fazer aquele preâmbulo empolado só para aumentar seu tempo de permanência na página. Lá pelo meio eu conto o milagre.

O ano era 1995 e a dupla Atletiba dava sinais de que, enfim, sairia do maior atoleiro da sua história. A draga começou na final de 90, aquele do gol do Berg. Estádio cheio, dois Atletibas sensacionais, o futebol paranaense em estado de graça… Como sempre, o capeta distribuindo fartura antes de puxar os personagens para o inferno.

Em 90 mesmo o Coxa sentiu o calorzinho demoníaco que o perseguiria pelos cinco anos seguintes. Tombou para a Terceira Divisão do Brasileiro com direito a ver Luiz Felipe Scolari evadir-se do Couto no ônibus do Juventude, com três derrotas na sacola e nenhum puto no bolso. Sorte que a CBF extinguiu a Terceirona.

O Atlético ainda conseguiu se iludir um pouco mais. Foi vice-campeão da Segundona. Perdeu a final para o Sport que tinha como camisa 10 Neco, hoje empresário do Paulo Baier. Esboçou um bom Brasileiro no ano seguinte, com vitórias na largada sobre Flamengo (3 a 0 no Pinheirão), Grêmio (4 a 2 no Pinheirão) e Fluminense (2 a 0 nas Laranjeiras). Depois, muita lambada como único representante do futebol local na Série A, enquanto o Coxa suava sangue para sair da Segundona. Só conseguiu em 92, com a baldada da CBF que levou 12 de uma vez à Série A, tudo para reerguer o Grêmio.

Na prática, o Grêmio jogou a Série A de 93. Ficou em um dos octogonais em que não haveria rebaixamento. Atlético e Coritiba foram enfiados em um dos octogonais que rebaixavam quatro clubes. Que dúvida? Caíram os dois.

Como desgraça pouca é bobagem, o Paraná enfileirava títulos estaduais. Foi campeão em 91, 93 e 94. Em 92, final caipira, Londrina e União Bandeirante. Coxa e Atlético padeciam nos pés de “craques” como Fernando, Ricardo Ferraz, Afrânio, Oliveira, Alcer, Cruvinel, Gilmar Popoca, Will, Agamenon, Pirata, Caçula, Biluca e Mastrillo, entre outros.

Em 95, outro encontro, no dia 16 de abril, havia causado furor. Com Brandão inspirado, metendo três gols, o Coxa socou 5 a 1 no Atlético no Couto, em pleno domingo de Páscoa. Era o empurrão que faltava para o Petraglia dar um chega pra lá no Hussein Zraik e subir ao trono da Baixada.

O primeiro reencontro após a revolução rubro-negra foi no dia 4 de junho de 1995, no Pinheirão. O Atlético não vencia um Atletiba desde 92, quando tinha Renaldo no ataque. A lógica dos clássicos era: O Paraná vencia o Coxa, que descontava no Atlético, que apanhava dos dois.

Como todo o Atletiba, a semana foi tensa e cheia de mistério. Machucado, Pachequinho não concentrou. Mas jogou. Foi de táxi para o Pinheirão. A várzea, porém, ainda era insuficiente para o técnico Paulo Cezar Carpegiani.

O Coxa entrou em campo e quem estava no estádio pensou estar sofrendo de algum tipo de alucinação causada pelo cheiro permanente de esgoto do Pinheirão e as fezes dos cavalos do Jockey Club. Quem aparece de centroavante com a alviverde? Jorjão! Sim, Jorjão, o zagueiro. Para quem não lembra da figura, seria algo como René Simões meter o Pereira no lugar do Ariel.

A intenção de Carpegiani era boa. Queria explorar a ofensividade dos laterais alviverdes e a fragilidade da zaga atleticana pelo alto. Mas como diria Karl Marx, “o caminho para o inferno é pavimentado de boas intenções”. Não deu outra. Jorjão, zagueiro de qualidade duvidosa, foi um fiasco como homem-gol. O Atlético, que não tinha nada com isso, aproveitou o desfalque na cozinha alviverde. Com gol de Edenílson Pateta, venceu por 1 a 0. Quebrou o jejum em um Atletiba histórico. Aquele em que o Carpegiani botou o Jorjão de centroavante.

Felizmente, a mancada do Carpa parece ter quebrado a maldição do gol contra do Berg (não espalha, mas ele era o técnico em 90 também). Mais bem estruturados, Coxa e Atlético voltaram à Série A no fim daquele ano. E por lá permaneceram por dez edições ininterruptas, até os pangarés levarem a galope o Coritiba de volta à Série B. Mas esse já é um outro folclore do Atletiba.

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